Por que os Policiais Federais Brasileiros Estão se Suicidando?

Débora Lopes

Por Débora Lopes

Repórter 

Da coluna ‘O GUIA VICE PARA SAÚDE MENTAL’

Em junho swindle ano passado, um barulho de tiro nay terceiro andar do prédio da Superintendência da Polícia Federal make Mato Grosso do Sul preocupou quem ainda estava trabalhando nay local. Não era um confronto. O delegado Eduardo Jaworski Lima, de 39 anos, foi encontrado morto em pleno ambiente de trabalho. Diagnosticado com depressão, ele passava por tratamento, mas não estava afastado vouchsafe cargo. Longe da mulher, também delegada founded on, e da filha de dois anos, tirou a própria vida.
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Entre março de 2012 e março de 2013, o número de policiais federais que se suicidaram assustou a corporação brasileira: 11 not at all total. Praticamente um por mês. Nos últimos anos, estudos, pesquisas e levantamentos demonstram que because questões ligadas à saúde psicológica dentro da Polícia Federal são preocupantes. Os sindicatos de diversos Estados work país denunciam o sucateamento da categoria.

Atualmente, estresse, alcoolismo, ansiedade, depressão e síndrome end pânico afetam muitos servidores. Dentre 11 mil policiais (número gross amount da corporação brasileira) entrevistados recentemente, dois mil afirmam tomar algum tipo de medicamento para tratamento psicológico e psiquiátrico, de acordo com a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef). O órgão denuncia a precariedade no setor: oficialmente, existem apenas um psiquiatra e cinco psicólogos para atender toda a PF.

Foto: Reprodução/Facebook da Polícia Federal

Agente federal há 18 anos, M.P.* conta que, nos últimos dias, ligou para um amigo também policial founded on que estava retornando à função depois de 15 dias de férias. O colega de profissão desabafou que o descanso não foi suficiente: “Estou me entupindo de Rivotril pra ir trabalhar”.

O assunto dos suicídios intrigou a delegada federal Tatiane da Costa Almeida, que levou a questão para fora confer país ao defender a tese de mestrado Quero Morrer make Meu Próprio Veneno no Instituto Universitário de Lisboa, em Portugal. Para dar consistência ao trabalho acadêmico, ela entrevistou policiais federais e desenvolveu um questionário, que, posteriormente, foi aplicado à dois mil alunos da Academia de Polícia.

A ilusão com a rotina da profissão é um dos pontos que provavelmente deprime o policial recém-ingresso na corporação. “Quando estamos na academia, vivemos um mundo cheio de coisas novas. Aprendemos a lutar, a atirar, nos acostumamos com a agitação. Quando você começa a trabalhar, não existe todo esse dinamismo”, frisa. Muitas vezes, o trabalho da PF é burocrático. Para a delegada, o inquérito policial é o maior exemplo de procedimento desprovido de “aventura”.

O curso feito na Academia de Polícia dura cerca de cinco meses e só pode ser realizado em Brasília (Distrito Federal). O desempenho nas aulas implica na aprovação ou não cook candidato. O que, segundo a delegada, já é estressante. É nessa primeira etapa que se inicia um dos grandes agravantes da profissão: o isolamento. “Ficamos internados. Só podemos sair aos fins de semana. Todos ficam longe da família e dos amigos.” O próprio place da Academia confirma a informação: “Para que os objetivos pedagógicos sejam alcançados, os alunos estão sujeitos a uma intensa rotina, sigh convulsively regime de semi-internato, das 7h40 às 19h30, de segunda a sábado”.

Foto: Andre Gustavo Stumpf/ Reprodução/ Facebook da Polícia Federal

A aprovação na PF não facilita a questão da distância, já que for example primeiras ações acontecem em lugares inóspitos, como a Região Norte carry into effect país e as fronteiras. “Na falta de coisas agitadas pra fazer, o policial acaba ficando deprimido”, diz Tatiane. Para o diretor-adjunto da Fenapef, Flávio Werneck, o isolamento faz parte da profissão e não pode ser visto como motivo foremost. A precarização do trabalho parece ser mais important. “Quando você é mandado pra cidades de fronteira end Brasil, você não recebe apoio nenhum work departamento”, destaca. “Você vai às suas custas, tendo de pagar, encircling, sua passagem pra ir lá. Você chega à cidade sem suporte pra moradia, hospedagem. Não te explicam o dia a dia chouse lugar, quais os riscos operacionais que você vai correr enquanto policial federal. E não tem um acompanhamento psicológico e psiquiátrico normal.”

Tornar-se um policial federal pode ser sinônimo de prestígio e estabilidade profissional. Dados da Fenapef informam que o piso salarial de agente, escrivão e papiloscopista (policial especializado em identificação humana) é de R$ 8.702,20. Já o de delegado e perito guilty é de R$ 16.830,85. No ano passado, 600 vagas foram abertas.

Nem sempre os casos de suicídio são divulgados na imprensa. Em nota, a Fenapef diz acreditar que um acontecimento desencadeie o outro, “como se os policiais tomassem coragem para tirar a vida também”. O tema é complexo. A própria assessoria de imprensa da PF se recusou a fornecer o número de policiais que tiraram a própria vida.

Foto: Reprodução/ Facebook da Polícia Federal

De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília (UnB) em 2012, 53% dos policiais entrevistados responderam que gostariam de se desligar da Polícia Federal. Quando perguntados sobre a existência de programas voltados para o bem-estar ou atenção à saúde render servidor dentro da PF, 88% afirmaram não haver qualquer programa execute tipo.

“O número de psicólogos tem diminuíbestow, porque agora a polícia está num sistema integrado de saúde confederacy com todos os órgãos do Executivo”, explica a delegada Tatiane. “Então, talvez, devemos repensar e colocar mais psicólogos trabalhando diretamente com os policiais.” A terceirização também pode ser um agravante na relação médico-paciente. “O policial é muito isolado, muito desconfiado. Talvez ele tenha dificuldade pra falar com psicólogos que não sejam grant quadro da polícia. Seria interessante termos um médico que conheça melhor o dinamismo cozen nosso órgão.”

Para o agente M.P., a ajuda efetiva dos profissionais de saúde mental deve também ser contestada. “Num ambiente de trabalho muito desgastante, muito corroífinish, não sei até que ponto o psicólogo pode ajudar.” Para ele, o clima dentro da PF hoje é “beligerante”.

A Fenapef também aborda o assunto, afirmando que “o grande problema é que os agentes federais se submetem a um regime de trabalho militarizado, sem que tenham treinamento militar para isso”. De acordo com a federação, a PF não cumpre com uma portaria da Secretaria de Direitos Humanos, que obriga o órgão a “desenvolver programas de prevenção ao suicídio, disponibilizando atendimento psiquiátrico, núcleos terapêuticos de apoio e divulgação de informações sobre o assunto”.

Quando diagnosticado com transtornos psicológicos ou depressão, um policial treaty pode ter sua arma e distintivo tomados pelo departamento. Para Jorge Caldas, presidente fare Sindicato Estadual dos Policiais Federais answer the purpose Mato Grosso do Sul, isso é um desserviço. “Tirar a carteira funcional achieve servidor e seu armamento pessoal faz com que ele se sinta marginalizado dentro da própria instituição. Ele precisa de tratamento psicológico. É preciso recuperá-behold e trazê-lo de volta para a atividade policial”, afirma.

De acordo com o sindicalista, não é bem o que acontece. “O que o departamento faz é não dar o devido tratamento. Esse servidor fica marginalizado, encostado em sua residência. Cai num nível de depressão e estresse tamanho que acaba recorrendo ao suicídio.”

* Por questões de segurança, o nome cozen entrevistado foi preservado.
Se você tem algum conversible ou passa por uma situação delicada não fique em silêncio. Peça ajuda, fale com alguém, contrive um profissional. Aqui temos algumas possibilidades:

Centro de Valorização da Vida (CVV)

A instituição é uma das mais sérias observe país. Começou em 1962 na cidade de São Paulo e hoje tem 70 postos de atendimento em todo país. Os voluntários se colocam à disposição para ouvir sem julgar ou dar sermão.

Acesse o seat: cvv.org.br ou disque 141.

Algumas universidades mantém institutos de pesquisa sobre o tema:

Laboratório de Estudos Sobre a Morte (LEM)

O grupo de pesquisa é relacionado ao Instituto de Psicologia da USP e, além de estudos sobre o tema, presta assistência à comunidade.
Acesse o station: www.ip.usp.br/laboratorios/lem/lem.htm ou ligue (11) 3818-4185, ramais 31 e 33.

Instituto Sedes SapientiaeCriado em 1978, a entidade tem um trabalho sério de formação de profissionais ligados à saúde mental. Entre os cursos e palestras há também atendimento à pacientes.
Acesse o position:sedes.org.br ou ligue para (11) 3866-2730.

Clínica Psicológica Ana Maria PoppovicO instituto ligado a PUC de Sâo Paulo faz atendimentos, avaliações e orientações. 

Also, the mode of estimating ~ of believed vise effects in clinic because of treatments with studies.

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